A propósito dos 300 de Esparta

Na verdade, não se pode dizer que o filme "300" tem um argumento - na acepção exata da palavra - parecendo, portanto, apenas irônica, a meu ver, qualquer ilação que se queira tirar dele, tanto no plano histórico, como no político. É mais uma fantasia ou, na terminologia tupiniquim, um samba-enredo sobre a Batalha das Termópilas, ocorrida na Grécia (480.a.C), com base numa reles história em quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley.
Por sinal, seria até aconselhável, penso eu, que alguém responsável pela área cultural do país - após consultar naturalmente o conselho dos orixás da Bahia - tirasse dinheiro da cueca para instituir um prêmio para o Zack Snyder por prestar homenagem, em seu filme, à estética das nossas carnavalescas escolas de samba, que agora está sendo divulgada ao mundo inteiro com o sucesso estrondoso de bilheteria que vem obtendo.

Pois não é que o valoroso Snyder conseguiu fazer aportar em plena Batalha das Termópilas ("portas quentes" pra não dizer "costas quentes") um carro alegórico, trazendo um astro global, Rodrigo Santoro, interpretando o papel de Xerxes - filho de Dario, rei dos persas - ao melhor estilo e com todos os trejeitos e penduricalhos de um pai de santo que habita o Pelourinho... E não satisfeito o tal Snyder fez ainda pintar um clima entre Xerxes e o rei Leônidas (Gerard Butler), que grita a todo o tempo, a pleno pulmão, não o orgulho gay, mas o de ser espartano macho tchê!....
Chanchada igual não se via desde os tempos da Atlântida, nos filmes em que brilhavam Ocarito e Grande Otelo!... Mesmo porque depois da cantada que Xerxes dá em Leônidas, apoiado no seu cangote, um dos trezentos soldados de elite de Esparta, já percebendo certa influência brasileira no pedaço, desesperado, grita: Isto aqui já virou bagunça!...Enquanto isso, outro soldado espartano ralha e censura um companheiro por estar mostrando em demasia o traseiro para os soldados persas. E aí a coisa esquenta.
Quem puxa o samba-enredo não é, como deveria ser, o Neguinho da Beija-Flor, mas Dilios (David Wenham), cuja narrativa mostra o despotismo sob o qual viviam os espartanos governados por uma assembléia aristocrática, tendo o rei apenas funções religiosa e militar. Os pais eram obrigados a sacrificar os filhos que nascessem com defeito físico ou mental. Os tidos como normais eram entregues à cidade-estado para serem preparados desde cedo para a guerra. O objetivo, portanto, era o de se criar uma casta de cidadãos guerreiros.

Ao início da ação, o rei Leônidas recebe um Emissário persa (Tyrone Benskin), que lhe vem impor submissão ao rei Xerxes. Irritado, Leônidas bate o pé e abate o Emissário e seus acompanhantes, decidindo, ao mesmo tempo, ir enfrentar os persas, sem ter, entretanto, como Bush, autorização legal para isso, pois não submetera pedido neste sentido à ONU, ou melhor, à assembléia, como se fazia necessário.
Ao partir, Leônidas não pode sequer dar um beijo na mulher, a Rainha Gorgo (Lena Headey), que comanda a ala doméstica, porque, como explica o puxador do samba-enredo, Dilios, em Esparta não se permite nem o amor, nem a ternura. O estado é totalitário mesmo. Pior que o de Fidel Castro. Apesar disso, Leônidas, firmemente decidido, vai, com a sua ala de 300 soldados espartanos de elite, munidos de portentosos escudos esféricos, à procura de Xerxes, que por sua vez comanda um exército de mais de um milhão de soldados persas, exímios atiradores de flechas.
Já numa primeira batalha, contudo, os portentosos escudos esféricos oferecem abrigo protetor aos soldados espartanos contra a chuva de flechas que vêm em sua direção, lançadas pelas tropas persas, situadas numa das montanhas. Entusiasmado com a proteção dos escudos, o Capitão (Vincent Regan), um dos mais chegados a Leônidas, lhe lembra que ele estava certo, quando dizia que eles lutariam à sombra!... Leônidas acha bom o agrado do soldado bajulador, mas logo se irrita, quando lhe aparece, no topo de uma montanha, uma figura disforme, Epliialtes ( Andrew Tiernan), cujos pais não tiveram a coragem de assassiná-lo em criança, o qual insiste que quer porque quer lutar ao lado dos espartanos.
Dizendo-se cumpridor da lei - embora tenha passado por cima dela para ir guerrear contra o pai de santo, ou melhor, Xerxes - Leônidas nega o direito do pobre Epliiates de lutar ao lado de seus soldados, dizendo-lhe que ele não sabe manejar uma lança ou um escudo e, pior, não aprendeu desde criança a ginga de um mestre-sala de uma escola de samba brasileira. Tem o corpo disforme porque come churrasco e toma muita cerveja. Epliiates vira uma fera e debanda para o lado de Xerxes, que o recebe, sem preconceito, de braços abertos e lhe oferece uma porção de mulheres para ele, como Macunaíma, se divertir à beça....

Ocorre, porém, que chega ao conhecimento da Rainha Gorgo que o maridão dela, Leônidas, está a perigo, necessitando de mais homens, pois os 300 que levou, selecionados num concurso público, que obedece a métodos tradicionais brasileiros, não vão dar conta do riscado. A Rainha decide ir pedir autorização para aumentar a ala de soldados do marido ao conselho dos cartolas, ou melhor, à assembléia aristocrática. Mas, para que isso ocorra, ela precisa pedir ajuda a Theron (Dominic West), que por sua vez lhe exige o que ele mais quer: ir com ela a um motel, com vista para o mar, na Barra da Tijuca. A Rainha não titubeia - mesmo porque Leônidas não demonstrou ser bom de tranco na última noite que passou em casa, pois, permaneceu por muito tempo peladão diante da janela, olhando, indeciso, para as lonjuras - e aceita o convite. E aí a coisa pega porque o comparecimento da Rainha Gorgo perante a assembléia vira uma tragédia... E que tragédia!
Lamentavelmente, não há o que dizer sobre a atuação dos atores em "300" . Na verdade, o processo a que se submeteram todos eles não é o de adequação à linha imposta pela direção. Seria eufemismo, aliás, dizer isso, como foi dito ao início do comentário. É, sim, corrijo-me, um processo de pasteurização, pois, Zack Snyder, fazendo uso da famigerada técnica digital, alterou a seu bel prazer gestos, vozes e movimentos dos atores em cena. Eles se tornaram verdadeiros fantoches. É a anulação completa do trabalho de interpretação, ao qual só se submetem atores sem personalidade que necessitam se expor a qualquer custo a fim de permanecerem no mercado.
Enfim, "300" , de Zack Snyder, embora tenha vinte minutos de seqüências visualmente bonitas - adquiridas por uma indústria automobilística para fazer publicidade de seus produtos no mercado internacional - não passa de uma fantasia, ou melhor, de um samba-enredo sobre a Batalha das Termópilas, filme que se não deve, em absoluto, levar a sério. É mais uma patuscada histórica americana, com a ajuda estética das escolas de samba brasileiras, que, por estar faturando muito, como a dos piratas do Caribe, pode até virar uma trilogia. Divirtam-se, portanto, com esses espartanos, figuras históricas de araque, cujo líder grita a todo o tempo que seriam eles homens livres...Seriam?
Reynaldo Domingos Ferreira
Dados técnicos
Título:300
Diretor:Zack Snyder
Elenco:Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Dominic West, Vincent Regan, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro, Andrew Tiernan, Andrew Pleavin, Tyrone Benskin
País/ano:EUA/2007
Duração:117 minutos








