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  • As três prisões de Renato Archer após o AI-5

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Tempo de leitura: 4 min 0 seg    Publicado em: 08/Fevereiro
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Político e cientista, Archer presidiu a Frente Ampla de Lacerda, Jango e Juscelino e por isso era tão visado pelos militares

A carreira política de Renato Archer (ex-deputado federal e ex-ministro) sempre foi muito movimentada, e mais ainda após 1964. Voltado para a questão nuclear, para a política científica e tecnológica, defensor de uma diplomacia externa independente, passou a ser visado e valorizado pelos órgãos de segurança do governo militar. Sobretudo depois que assumiu a presidência da Frente Ampla, que reunia Juscelino (seu amigo), Carlos Lacerda e João Goulart. Depois de implantado o governo militar, apesar de sua formação naval, foi preso em três oportunidades, sempre por razões diferentes e pouco convincentes.


Renato Archer foi cassado no dia 30 de dezembro de 1968

Ele era deputado. Foi cassado no dia 30 de dezembro de 1968 no mesmo decreto que atingiu Carlos Lacerda, Motivo: as articulações na formação da Frente Ampla. E logo preso. E é Archer quem lembra:

"Fiquei incomunicável durante algum tempo e, depois de passagens por vários locais, fui levado para a Polícia Militar e, após, para a Vila Militar, onde permaneci 35 dias incomunicável até que entrou em meus aposentos Álvaro Alberto ( graduado oficial da Marinha) e meu amigo. Perguntou há quanto tempo estava lá. Disse que faziam 35 dias, mas não tinha sido interrogado e nem sabia porque estava preso. Álvaro Alberto prometeu que sairia dali no mesmo dia.

"Fui então levado por um grupo armado até à Marinha, mas o oficial do Exercito quis saber onde ficaria, pois era o encarregado do IPM. A resposta de Álvaro Alberto foi dura, segundo Archer:

- Não, o senhor não precisa saber. O senhor não vai mais vê-lo.

Logo que fui transferido, a Marinha quis saber a razão de tudo. O general Henrique Assunção Cardoso, que emitira a ordem de prisão, disse que não tinha que dar satisfações. Durou vinte dias para chegar uma resposta escrita dizendo que eu estava respondendo a um IPM.

A causa real

O general Assunção tinha ódio de mim, conta Renato Archer, porque eu fora testemunha, embora involuntária, de um episódio em que ele saíra humilhado. Carlos Lacerda me chamara à sua casa para tratarmos de assuntos relacionados com a Frente Ampla. Saímos juntos. Uma kombi cheia de oficiais armados nos seguiu. Em dado momento nos ultrapassou. Saltou o general Assunção e, quando tentou dizer alguma coisa a Lacerda, este fez um escarcéu. Fez um tremendo escândalo no meio da rua. Tudo muito ridículo. Dizia os maiores impropérios, ameaçava dar pontapés e o general dando pulinhos ridículos, enquanto os oficiais estavam de arma em punho.

É possível, diz Archer, que seu nome o lembrasse daquela humilhação. O IPM foi em frente, demorou mais algum tempo mas Renato Archer ainda foi preso mais duas vezes.

A segunda prisão coincidiu com a doença de Costa e Silva. Só que, desta vez, a Marinha se antecipou e lhe propôs que cumprisse a prisão em seus domínios, onde chegou até a fazer conferências sobre a situação política...

Mais uma...

A terceira prisão, em 1970, foi gerada, segundo sua interpretação por instabilidades e crises internas do governo militar. O general Mário da Silva Souza lhe contou que oficiais do exército, próximos a cair na compulsória, estavam usando a violência-única forma que conheciam de negociar - para pressionar o governo a nomeá-los para certos cargos. Houve várias prisões, inclusive a de Sobral Pinto e Heleno Fragoso. O general Orlando Geisel, então ministro, procurado por um amigo de Archer para saber a razão da prisão, explicou que se tratava de um desafio ao governo por um grupo militar que pretendia fazer imposições.

Archer confessa que nunca foi informado sobre as razões da terceira prisão e conta que, à certa altura, apareceu um agente do Cenimar, que se apresentou como doutor Mário. Queria saber se trouxera da França um manuscrito para publicar no Brasil. Seria peça de uma campanha que Marcito (Márcio Moreira Alves) juntamente com Miguel Arraes estaria desencadeando para atingir a imagem do Brasil no exterior, inclusive com organizações de marchas.

"Confirmei ser amigo da família de Marcito e seu amigo. Que o visitava quando ia a Europa e que o fato de sermos do mesmo partido não queria dizer necessariamente uma ação política comum. Aos poucos a temperatura baixou e Archer acabou, por influência de amigos, sendo libertado."

Por Carlos Fehlberg


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