As aparências enganam

Ricardo de Barros Falcão Ferraz
Publicado em: 07/08/2017

É preciso desconfiar dos discursos retóricos do julgamento da admissibilidade da investigação de Temer por crime comum pela Câmara Federal.

Apesar das aparências, PT e PMDB seguem lutando pelas mesmas coisas, e Bolsonaro e Jean Willys seguem sendo contrapostos perfeitos um ao outro.

No entanto, nas mídias sociais, muitos comentários se mostravam impressionados com o conteúdo dos discursos, acusando uma suposta incoerência dos deputados do PT, partido mais envolvido na Lava Jato e nos esquemas bilionários de corrupção, quando bradavam no microfone "... pelo combate à corrupção, pela ética na política, meu voto não!”. Pelos comentários, se o PT antes não condenava a corrupção, não teria moral para questioná-la agora.

Outros disseram que contraditório seriam os deputados do PMDB, que até ontem bradavam "... pelo combate à corrupção, meu voto é sim, para cassar Dilma", e que repentinamente não teriam mais nenhum interesse no combate à corrupção, dizendo "...pela estabilidade econômica, pelo Brasil, voto é sim, para não investigar Temer!”. Nesse caso, os comentários seriam “... onde está a coerência? onde estão as panelas”, diziam.

Não há, no entanto, contradição alguma. É bem verdade que o quadro político atual merece censuras, mas nada de surpreendente está ocorrendo. E a idéia de que os campos até então opostos, por ora estariam unidos, ao passo que os campos políticos mais próximos, estariam agora em frontal oposição, nada mais é do que uma falsa representação da realidade. É verdade que Bolsonaro e Jean Willys, sabidamente em campos opostos da política, votaram da mesma forma. E muitos eleitores do Bolsonaro manifestaram sua irritação com ele. Para aqueles, pouco importa o conteúdo da decisão em jogo, se o PT e o PSOL estão de um lado, Bolsonaro tem de estar no outro. Ponto final!

Bolsonaro começa a aprender que o custo retórico da coerência ética é muito alto.

E o que dizer do PT e do PMDB, que até pouco tempo formavam um bloco indissolúvel. Durante todos os oito anos de governo Lula, e quatro dos cinco anos do governo Dilma, dividiram o comando do Senado e da Câmara Federal, e nunca mostraram nenhum apreço pelas investigações Lava Jato. E, nesta mesma medida, aparentemente não lhes interessava mais o combate ao crime do colarinho branco, a prisão de banqueiros e empreiteiros, um tema que sempre permeou o discurso progressista fundado no velho argumento do “… é por isso que o Brasil não vai para frente!".

Pelo contrário. Passamos a nos acostumar com o discurso de que processar e condenar poderosos poderia ser uma forma de violação do Estado de Direito. E que a democracia e a Constituição Federal repentinamente estariam em risco porque os juízes passaram a determinar conduções coercitivas de forma abusiva, e a manter presidentes de empreiteiras na cadeia por tempo indeterminado.

Pois bem. Apesar dos discursos, nem PT, muito menos o PMDB, ocupam campos opostos. Tampouco Bolsonaro e Jean Willys estão unidos. A elite política é uma só, e se tem hoje um inimigo comum, este inimigo é a Lava Jato que, apesar de seus “desmandos", é a única centelha de esperança para colocar um fim no modo corrupto de operar o sistema político nacional, e no estilo de impunidade que nos acostumamos a achar juridicamente normal.

Digam o que quiser, mas a verdade é que a partir da Lava Jato o custo de ser corrupto, no setor privado e público, tornou-se muito mais alto. A certeza da impunidade não é mais um dogma absoluto. Certamente o candidato a criminoso, ao deixar-se comprar ou corromper, pensará: "... amanhã pode ser eu, nas manchetes dos jornais, com dezenas de policiais na minha casa, e todo ódio do Brasil voltado contra mim e minha família." E ele terá razões para pensar assim, pois ainda hoje há empresários e políticos de renome presos, desde o mensalão!

Se há diferenças entre PT e PMDB, não estará no discurso, mas nas circunstâncias. Dilma tinha uma base social e política muito resiliente, mas cometeu a insanidade de quase aniquilar a economia brasileira. E isso lhe foi fatal! Sem a economia em ordem, perdeu o apoio partidário mais importante. Estimulou seus adversários a saírem às ruas, e com isso colocou o PMDB de Temer no planalto nacional. Temer, no entanto, é muito mais esperto! Está recuperando a economia, e com isso mantém a sociedade pacificada, longe das ruas. Pouco importa se tem 90 % de reprovação! Seu foco, então, se resume à sustentação partidária e articulação política parlamentar, local onde o PMDB de Temer é senhor absoluto.

Para Dilma ser apeada do poder, bastou a Temer e o PMDB surfarem a crise econômica, virando as costas a seus companheiros de trincheira. Mas sem a crise econômica, dificilmente o Presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, fará com Temer, o que lhe acusam ter feito com Dilma.

E tudo segue igual a antes! A elite política continua unida contra a Lava Jato, os únicos que realmente podem lhe causar algum mal. E Bolsonaro e Jean Willys seguem se odiando!

Ricardo de Barros Falcão Ferraz é advogado especialista em direito eleitoral, professor universitário, foi coordenador institucional e subchefe parlamentar da casa civil no gov RS, é articulista do site.

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Opinião do leitor

Bravíssimo pelo artigo de nosso avô João Neves da Fontoura!!! Gostaria de agradecer pessoalmente.

João Neves Fontoura Neto
Rio de Janeiro - RJ

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