Quando a política submerge

Francisco Ferraz
Publicado em: 10/07/2017

Quando a política submerge não a vemos, ou melhor, vemos um jogo de sombras: pessoas, declarações, fatos, decisões, mas não conseguimos estabelecer com segurança as conexões existentes e, portanto, nem os objetivos, estratégias e intenções.

Há situações em que a dinâmica da política está em permanente mudança. Cada novo fato que surge exige uma nova reavaliação do quadro geral, mantendo-se então uma instabilidade permanente.

Ocorre assim uma verdadeira inversão na lógica politica. Como regra, quem produz o fato tem o interesse e o dever de explicar suas razões e intenções aos eleitores. Os adversários, por dever do ofício, contestam, tentam denunciar as razões e interesses ‘verdadeiros’. Políticos sabem também que é preciso manter um mínimo de coerência entre seus atos e suas ideias e convicções. Além disso, a política ocorre nos marcos de uma divisão conhecida e compartilhada com os eleitores: situação vs oposição.

Em situações como a atual no Brasil quando a carreira está ameaçada; quando já não se sabe quem é oposição e quem é situação; quando se instalam vários blocos políticos organizados em torno de suas lideranças; quando estes blocos alteram seus parceiros em função das reacomodações provocadas por novos fatos e quando, ao invés de explicar suas ações, os políticos são levados a oculta-las, dissimula-las ou mesmo nega-las à outrance é porque a política submergiu.

Num quadro com essas características, a análise e a interpretação da política tende a ficar prisioneira das alegadas intenções mais que dos fatos; a buscar o apoio em informações reservadas ou sigilosas, freneticamente buscadas; a depender demasiadamente de declarações que muitas vezes não passam de tentativas de ocultação ou dissimulação; a se legitimar pelo partidarismo e ideologias que se alimentam dos sentimentos de amor ou ódio.

As ações dos atores políticos são tentativas de impor ao jogo do poder suas respectivas estratégias feitas de avanços e recuos.

A análise dos fatos do dia a dia, portanto, não é mais do que pode ser: a atualização dos fatos, atitudes e declarações das últimas 24 horas, da última semana... Pauta-se por fatos e informações frágeis, precárias, em constante mudança que são insuscetíveis de dar solidez preditiva às análises.

Um jogo político como o brasileiro atual assemelha-se a um jogo de cartas. Há talvez uma dezena de atores principais em torno da “mesa de jogo”, em volta deles há centenas de atores secundários. Cada um desses atores tem um conjunto de poderes suficiente para permanecer no jogo, mas insuficiente para excluir seus adversários; um conjunto de poderes para bloquear as ações de alguns adversários, mas insuficiente para impor seus interesses.

Por outro lado, cada ação ou omissão deles, um número expressivo dos demais é afetado positiva ou negativamente.

Permanecer à mesa depende de ter fichas e, porque os que ocupam a mesa são os principais atores, suas ações podem afetar a todos os jogadores.

Vez por outra alguém sai cabisbaixo da mesa ou da sua proximidade dela: foi excluído do jogo...

Como todos tem algum poder de veto sobre outros o jogo tende a continuar. Até quando... difícil prognosticar.

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Opinião do leitor

Milito há pouco tempo no cenário político, porém tive a grata satisfação de conhecer esse maravilhoso meio de informação que é o Política para Políticos. Tenho enriquecido muito meus conhecimentos acerca
de como se faz uma política verdadeira.

Roberto Short
Seabra - BA

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