2018 e a política brasileira

Juliano Corbellini
Publicado em: 24/02/2017

Texto publicado no jornal Zero Hora - 23/02/2017

 

Para o PT, fora uma eventual prisão de Lula, o estrago da Lava-Jato está feito. Mas, para os partidos que apoiam o governo Temer, existe um futuro de incógnitas. É o que a pesquisa CNT sobre as eleições de 2018 demonstra.

Por mais paradoxal que possa parecer, na perspectiva da eleição presidencial, quem hoje está mais paralisado pela Lava-Jato são as forças que apoiam o governo Temer. O baixo desempenho de Aécio e Alckmin, que já disputaram eleições presidenciais com altas votações, e representam um grande partido que desde a década de 1990 polariza a política nacional com o PT, sinaliza certo deslocamento momentâneo do PSDB da condição de protagonismo.

Isto porque, hoje, o polo mais dinâmico da política brasileira está fora das estruturas tradicionais: é a Operação Lava-Jato. É uma onda, uma "contranarrativa" contra os políticos, e por isso não há como um candidato da política tradicional simplesmente "surfar nela".

Refiro-me ao processo judicial em si e também ao imaginário social que ele mobiliza. É ele que gera fatos, exerce pressão sobre o sistema político, tem apoio da maioria da opinião pública e mobiliza uma classe média muito ativa, crítica à esquerda e com alguns bolsões ultrarreacionários. É importante ter prudência para distinguir a imensa "opinião pública silenciosa", e a "minoria ativa". Elas não são a mesma coisa, mas ambas compõem a força da operação como polo mais dinâmico da política brasileira.

Corroborando outras sondagens publicadas recentemente, outro ponto trazido pela pesquisa é que o segundo polo que hoje ainda dinamiza a política brasileira é o lulismo. Gera fatos, galvaniza a atenção, e principalmente mobiliza uma base social forte. Veja, não se trata do PT como partido, e nem somente de Lula como líder.

Trata-se de um fenômeno político em que se conjugam um líder, uma narrativa histórica estruturada sobre o país e uma grande parcela da população que se identifica com esse líder e essa narrativa. Tal conjugação faz com que o lulismo tenha organicidade, consistência como fenômeno político. Ele não é somente uma onda. E por isso, apesar de todo o desgaste do PT e dele próprio, Lula consegue mostrar essa resistência eleitoral.

Para voltar ao protagonismo, as forças políticas que estão fora desses dois polos precisam reconstruir um discurso, uma narrativa sobre o país, que justamente não seja refém da Lava-Jato, e que consiga novamente rivalizar com a narrativa do lulismo.

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Opinião do leitor

Meus parabéns pelo caderno sobre filosofia política prática, de caráter apartidário. São movimentos como o de vossas senhorias que fazem o povo acreditar na possibilidade de uma "saída" do Brasil para seus problemas que vêm da época colonial. Gostei muito das matérias relacionadas aos clássicos da oratória.

Antonio do Rêgo Monteiro Rocha
Florianópolis - SC

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